Benefícios da parceria

Na busca pelo desenvolvimento persuasivo da agricultura, que caracterizou as últimas décadas até ao atual caráter de sustentabilidade reivindicado pela sociedade, evidenciou-se indubitáveis mudanças que levaram as instituições promotoras, coordenadoras e executoras deste desenvolvimento a se adaptarem a novos modelos de ação.

Houve tempo em que a individualidade institucional era o padrão. Com a escassez de recursos financeiros, a globalização da economia e as pressões de segmentos organizados da sociedade, com vistas à formulação de propostas institucionais em sintonia com as demandas de toda a cadeia produtiva, considerando fundamentalmente a qualidade de vida e a proteção ambiental, o paradigma a ser vencido passou a ser a habilidade de as organizações se articularem entre si para otimizarem recursos e atenderem a magnitude de tais demandas. Esse cenário moveu as empresas do setor agropecuário a uma revisão de suas propostas institucionais de forma a considerar a complexidade das realidades em que atuam e a multidimensionalidade dos problemas que objetivam resolver. Assim, a parceria institucional ultrapassou as fronteiras organizacionais, promocionais e conceituais, eliminando preconceitos e permitindo que a ciência, a tecnologia e a inovação passassem a conviver com o marketing e com o lucro. Diante dessa nova conjuntura, ficou evidente que a ação institucional isolada se tornara inócua e incompleta ou, até mesmo, inadequada.

O novo modelo institucional, estruturado para atender essa nova realidade, passou a ser enfocado sob a base conceitual de pesquisa, desenvolvimento e inovação. Nesse contexto, as ações de pesquisa, desenvolvimento e inovação, além de atenderem as demandas identificadas junto aos usuários, clientes e beneficiários do sistema agrícola produtivo, necessariamente devem atender aos anseios de grupos organizados e da sociedade como um todo. Assim, esse modelo é caracterizado por uma participação mais diversificada de personagens, fruto da obrigatoriedade de ações interdisciplinares e pela tomada de decisões mais complexas e mais distantes do local da ação, resultantes da globalização da economia e das exigências de melhor qualidade de vida e de menores impactos ambientais. De outra forma, nesse novo modelo de ação está implícito o caráter interdisciplinar das atividades envolvidas, evidenciando que a geração e a transferência de tecnologia são componentes de um mesmo processo contínuo e cíclico, em que o início e o término das ações acontecem junto ao usuário, ao cliente e ao beneficiário do sistema agrícola produtivo. Assim, as ações de pesquisa, desenvolvimento e inovação compõem um modelo sistêmico, englobando um complexo de processos que envolvem: identificação de usuários, de clientes e de beneficiários; identificação e priorização de demandas; identificação e priorização dos problemas implicados na demanda; análises de tendências socioeconômicas, de mercado e de impactos ambientais; pesquisa, desenvolvimento e inovação de tecnologia-solução; validação de tecnologias e de inovações prontas para uso; uso de canais de comunicação para capacitar e atualizar a assistência técnica e os usuários; e, por fim, incorporação da tecnologia ou da inovação ao sistema agrícola produtivo.

O segmento produtivo e os segmentos do entorno do processo produtivo exigem intervenções institucionais cada vez mais intensivas de conhecimento qualificado e integrado para a solução de problemas que, na maioria das vezes, excedem a capacidade de empresas isoladas para resolvê-los. Portanto, os problemas enfocados pelo modelo pesquisa, desenvolvimento e inovação, passam a ser mais amplos e mais complexos, sinalizando para a implementação de ações interdisciplinares e interinstitucionais, que se viabilizam através de parcerias. Essas condicionantes, frutos dos anseios de uma sociedade que a cada dia se torna mais organizada e mais exigente, estão promovendo uma crescente interdependência econômica e de informações entre empresas e nações, determinando um ambiente em que, em certas oportunidades, empresas e nações cooperam com algumas de suas competidoras, e, em outras oportunidades, competem com algumas de suas colaboradoras. Portanto, sob a influência dessas condicionantes, a eficácia e a competitividade institucional dependerão da formação de parcerias, de modo que as instituições que se encontrarem envolvidas em parceria de maior grau de complementariedade serão as mais eficazes e as mais competitivas, por ser praticamente impossível para uma única empresa deter toda a informação demandada.

Diante dessa conjuntura, a parceria institucional deve ser entendida como: ação entre iguais, em que a igualdade está associada à convergência de interesses e ao respeito mútuo; sociedade para um empreendimento comum com objetivos e metas, essencialmente claros; compartilhamento de recursos humanos, físicos e financeiros; e substituição de atitudes reativas por posturas criativas. Os princípios fundamentais desse tipo de parceria que concorrem para a garantia da busca pela sustentabilidade e da competitividade institucional são: ampliar a capacidade e a credibilidade institucional; reduzir a duplicidade de ações; reduzir custos e riscos; aumentar a eficácia da atividade; e conferir mais qualidade ao processo de trabalho. Assim, os melhores parceiros são aqueles que, além da convergência de interesses ou da complementariedade de missões e de objetivos, possuem pontos fortes e fracos diferentes e se encontram diante de oportunidades e ameaças também diferentes.

A Política de Conservação do Solo e da Água no Estado do Rio Grande do Sul é um exemplo de quebra do paradigma da individualização institucional, ao requerer e estabelecer parcerias entre instituições, contemplando órgãos governamentais, instituições de pesquisa, ensino, extensão e cooperativismo, entidades de classes profissionais, organizações privadas de consultoria e assistência técnica, empresas produtoras e comercializadoras de insumos e os próprios clientes e usuários, no caso, os produtores rurais. O estabelecimento de uma parceria dessa magnitude vislumbra a possibilidade da promoção de uma verdadeira revolução tecnológica orientada à difusão e à transferência de conhecimentos fundamentais atualizados e de tecnologias e inovações prontas para uso no contexto da agricultura conservacionista, para um extraordinário número de usuários, clientes e beneficiários do sistema agrícola produtivo do estado do Rio Grande do Sul, em curto prazo e sem macular a imagem de nenhuma dessas entidades parceiras.

A agricultura conservacionista reúne um complexo de tecnologias e inovações de processo, serviço e produto, que atuam de forma integrada e dependentes umas das outras. Ao refletir esse conceito, a agricultura conservacionista objetiva expressar o potencial genético das espécies cultivadas através da maximização do fator ambiente e do fator solo, sem, contudo, degradar os recursos naturais, atuando como um mecanismo de transformação, reorganização e sustentação da agricultura. Portanto, a demanda implicada nos objetivos da agricultura conservacionista é a prática de uma agricultura rentável, competitiva e ambientalmente correta, determinando que na sua aplicação estejam implícitos os questionamentos de o que produzir, quanto produzir, como produzir e que impactos o produzir provoca no meio. Por essas razões, a magnitude, a abrangência e a complexidade dos problemas implicados na implementação da agricultura conservacionista transcendem os limites do estabelecimento rural, com reflexos em toda a cadeia produtiva e nos sistemas do entorno que a envolvem, caracterizando um caso típico de enfoque de pesquisa, desenvolvimento e inovação, em que a prática de ações interdisciplinares e interinstitucionais é evidente e a formação de parceria é justificada.

Assim, como postulado pelo modelo de pesquisa, desenvolvimento e inovação que o sucesso de uma tecnologia ou de uma inovação só é pleno quando ela for praticada pelo usuário demandante, o processo de viabilização da agricultura conservacionistas em um determinado estabelecimento rural, além de exigir o conhecimento das peculiaridades inerentes à região e o ajuste do complexo de tecnologias e inovações a essa realidade, requer a disponibilidade e a acessibilidade aos meios para o sistema ser adotado. Portanto, é também nesse contexto de necessidade de complementariedade de ações que a parceria evidencia suas vantagens. No contexto da agricultura conservacionista, essas vantagens são externadas através da objetividade de ações, da convergência de interesses e do compartilhamento dos recursos humanos, físicos e financeiros, em prol do empreendimento comum que é conhecer as peculiaridades do ambiente onde ela será processada, ajustar as tecnologias a esse ambiente e disponibilizar os meios indispensáveis à sua adoção. Portanto, a interação de ações proporcionada pela parceria evita que o processo de pesquisa se encerre na fase de geração de conhecimentos. Essa forma de atuação viabiliza continuidade ao processo de pesquisa, transformando o conhecimento em tecnologia ou inovação pronta para uso, com disponibilidade para que seja praticado. Com ênfase ao processo de transferência de tecnologia, essa interação de ações em parceria assume papel de relevante importância ao gerar sensação de tranquilidade e de confiabilidade no relacionamento entre o cliente ou usuário adotante da tecnologia ou da inovação e as empresas fornecedoras dos meios e dos serviços envolvidos nesse processo. O detentor da tecnologia é incluído no processo de transferência de tecnologia, inibindo determinadas resistências que normalmente o cliente ou o usuário apresenta ao relacionar-se comercialmente com os fornecedores dos meios e dos serviços para a prática da nova tecnologia ou inovação.

Fonte: José Eloir Denardin – Pesquisador, Embrapa Trigo – CP 3081 – 99050-970 – Passo Fundo, RS Fone: (54) 3316-5800. Fax: (54) 3316-5802. Site: www.embrapa.br. E-mail: [email protected]

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